October 27, 2008

Até tu, Stuhlberger?


Desde 1997, o gestor mais admirado do mercado passou incólume por todas as crises financeiras. Desta vez, porém, o desempenho de seu principal fundo está entre os piores de sua categoria


Por Giuliana Napolitano
REVISTA EXAME


Enfrentar crises - e lucrar com elas - sempre foi uma das especialidades do gestor de recursos Luis Stuhlberger, sócio da Credit Suisse Hedging-Griffo, uma lenda viva do mercado financeiro brasileiro. Seu principal fundo multimercado, o Verde, passou incólume por períodos conturbadíssimos, como o colapso da economia russa, a desvalorização do real e a crise durante a campanha eleitoral de 2002. Desde que foi aberto, em 1997, o fundo rendeu aos investidores inacreditáveis 3 284%. Ou seja, quem aplicou 100 000 reais há pouco mais de uma década hoje tem quase 3,4 milhões na conta, uma valorização sem paralelo entre os fundos multimercados do país. Mas a crise atual parece ter chegado para todos - inclusive para Stuhlberger. Entre julho e setembro, o Verde teve uma queda de 14,5%, seu pior resultado trimestral. Só em setembro, a baixa foi de 7,3%. Num ranking que analisa a rentabilidade de 239 fundos multimercados de perfil semelhante entre janeiro e setembro de 2008, elaborado pelo Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas, o Verde ocupa uma decepcionante 214a posição. Sua perda, nesse período, foi de 1%. Nas palavras de um concorrente, o mítico Stuhlberger "finalmente mostrou que é humano".

Num momento em que quedas muito mais expressivas tornaram-se rotina nas bolsas de valores ao redor do mundo, o desempenho de Stuhlberger está longe de alarmar os cotistas do Verde - tanto que o fundo não vem sofrendo grandes resgates. Ainda assim, essa é uma situação nova para seus investidores, acostumados a ver seu saldo crescer mesmo em tempos de estresse. O grande talento de Stuhlberger, um engenheiro de 53 anos que tem uma trajetória de quase três décadas no mercado financeiro, sempre foi antever cenários de crise. Ele decidiu seguir carreira na área de finanças em 1980, depois que os negócios da família, que incluíam uma construtora, uma pequena petroquímica e um banco, degringolaram. Começou a trabalhar na corretora paulista Griffo e, meses depois, tornou-se operador de ouro numa empresa de commodities do grupo, a Hedging. Em pouco tempo, havia se tornado um dos principais operadores de ouro do país. No início dos anos 90, ele e outros sócios da Hedging compraram a Griffo para criar o que, mais tarde, virou uma das maiores corretoras e gestoras de recursos independentes do país, a Hedging-Griffo, adquirida pelo banco Credit Suisse no fim de 2006.

O primeiro fundo criado pela gestora foi o Verde - e ele enfrentou dois de seus maiores testes pouco depois do lançamento: as crises da Ásia e da Rússia, que eclodiram, respectivamente, em 1997 e 1998. Além de não ter apresentado nenhum mês de retorno negativo nesses dois anos, período em que o Índice Bovespa chegou a cair 15% num único dia, o Verde acumulou uma rentabilidade de 68% no período. Outra tacada brilhante ocorreu pouco antes da desvalorização do real, em 1999. Por acreditar que o governo não teria outra saída a não ser abandonar a paridade cambial com o dólar, Stuhlberger fez pesados investimentos em contratos futuros de câmbio e juros e em títulos públicos para lucrar com a baixa do real. A estratégia rendeu ao fundo uma alta histórica de 63% em janeiro de 1999, quando ocorreu a desvalorização da moeda brasileira.

A primeira queda

Nos últimos meses, esse faro aguçado para antecipar problemas falhou. Num relatório enviado a clientes no início de outubro, o próprio Stuhlberger reconhece que investiu demais em bolsa no último trimestre, período em que a situação global degringolou e levou junto os preços das ações de quase todas as companhias do planeta. No início de julho, o Verde tinha 27,5% do patrimônio em ações; terminou setembro com 42%. "Se tivéssemos previsto a complexidade do desdobramento da crise financeira mundial, teríamos optado por ter, na média do trimestre, cerca de 8% do patrimônio do Verde a menos em ações, o que teria resultado numa rentabilidade 4% melhor no acumulado do ano", escreveu ele. "Stuhlberger achava que a bolsa já estava no fundo do poço e que voltaria a subir, o que não ocorreu", diz um gestor concorrente. Procurado por EXAME, Stuhlberger não quis dar entrevista.

Apesar de ter mais ações em carteira do que gostaria, vendê-las não parece estar nos planos do gestor. No mesmo relatório, Stuhlberger dá o seguinte "recado" aos investidores: "A não ser para aqueles que já estão 100% investidos em ações e, por esse motivo, não têm dinheiro disponível para novas compras nos atuais níveis de preço, eu diria que estamos vivendo uma ótima oportunidade de aumentar o investimento em boas empresas". Para ele, as cotações das ações brasileiras passaram de "muito caras a caras". Depois tornaram-se "justas". Em seguida, ficaram "baratas" e, agora, segundo ele, estão "ridiculamente baratas". "Quem acreditar minimamente que o mundo não vai acabar verá", afirmou a seus clientes.

Ninguém sabe quanto tempo levará até que a crise perca força e as bolsas comecem a se recuperar. A situação do Verde, porém, é vista como confortável por profissionais do mercado. "Ele está pagando pelo erro que cometeu no curto prazo, mas não precisa de liquidez já. Pode esperar para se beneficiar de uma carteira maior de ações no futuro", diz Otávio Vieira, diretor do Safdié Private Bank, que assessora investidores de alta renda. Além de ter caixa para fazer frente a eventuais resgates, o Verde corre poucos riscos. Isso porque Stuhlberger procura evitar operações que costumam desesperar investidores em momentos de estresse: as compras e vendas de contratos futuros em volumes superiores ao patrimônio do fundo. Essa estratégia, chamada de alavancagem, gera lucros altíssimos para os cotistas de um fundo quando o gestor acerta a mão. Quando ele erra, porém, os investidores podem não apenas perder tudo o que aplicaram como ainda ser obrigados a colocar mais dinheiro para cobrir os prejuízos do fundo. Operações como essas levaram Aracruz, Sadia e Votorantim, alguns dos maiores grupos empresariais do país, a informar recentemente prejuízos que, somados, beiram 5 bilhões de reais. "Em cenários conturbados, como o atual, as chances de errar uma ou várias previsões são altíssimas, o que significa que as chances de perda também são elevadas", diz o professor William Eid, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV.

A história registra vários exemplos de fundos, aqui e lá fora, que quebraram depois de realizar operações alavancadas nos mercados futuros. A dramática turbulência atual já fez a primeira vítima no Brasil: a gestora de recursos GWI, do coreano Mu Hak You. No início de outubro, a empresa decidiu fechar para aplicações e resgates o fundo alavancado GWI FIA. A decisão foi tomada depois de a carteira ter acumulado desvalorização de 89% neste ano. O péssimo desempenho provocou uma onda de saques num outro fundo da gestora, o GWI Classic, que também foi fechado. Assembléias previstas para o próximo dia 23 vão decidir o futuro das duas carteiras - entre as opções, estão a substituição do gestor e o encerramento definitivo dos investimentos.

O fato é que os gestores de fundos de ações e multimercados esperam meses complicados pela frente. Além do desafio de garimpar investimentos rentáveis em meio a um turbilhão de rumores e notícias negativas, esses profissionais terão de convencer os investidores de que ainda vale a pena correr certos riscos - e evitar que eles decidam migrar de vez para aplicações conservadoras. "Parte dos recursos que saíram da renda fixa para a renda variável nos últimos três anos começa a voltar para produtos mais seguros", diz Rogério Betti, sócio da consultoria financeira Beta Advisors. Números da Associação Nacional dos Bancos de Investimento mostram que, só em setembro, os fundos de ações e multimercados perderam quase 8 bilhões de reais de patrimônio. Movimentos como esse não chegam a ser uma grande novidade para gestores experientes como Luis Stuhlberger, que viram o mercado brasileiro de fundos passar por diversos solavancos nos últimos dez anos. A novidade é que, agora, Stuhlberger está no grupo dos que têm de se explicar para seus clientes.


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