May 15, 2009

Outra Marolinha ou inicio da onda?


Os computadores se tornarão os melhores gestores de investimentos?

Veja os prós e os contras de investir nos fundos que aboliram a decisão humana nas operações em bolsa
Germano Luders
Hoje mais da metade dos 8.000 fundos de hedge do mundo utilizam somente a análise técnica para tomar suas decisões de investimento
Por João Sandrini | 13.05.2009 | 08h49
Portal EXAME -
Qualquer iniciante que peça dicas sobre as melhores formas de começar a investir em ações provavelmente será aconselhado a não aplicar na bolsa da mesma forma como se aposta num cassino. Para os especialistas, as decisões precisam ser tomadas de forma racional, para dirimir os riscos. O dinheiro só deve ser usado para a compra de algum papel se houver motivos lógicos que justifiquem o investimento. Palpites, pressentimentos ou intuição só serão suficientes para motivar uma aplicação quando o gestor conhecer muito bem o papel que está comprando.
Mas nada disso impediu que uma das formas de investimento em renda variável que mais cresce nos Estados Unidos e na Europa tenha como embrião justamente as apostas nos cassinos. Os fundos quantitativos, que se baseiam em sofisticados modelos estatísticos rodados por computadores para comprar ou vender papéis no mercado financeiro sem a participação de seres humanos no processo decisório, surgiram pelas mãos de dois físicos da Universidade da Califórnia que faturaram alto nas roletas de Las Vegas na década de 70.
Doyne Farmer e Norman Packard desenvolveram inicialmente apenas um modelo para vencer nos cassinos. Pouco mais de uma década depois, no entanto, esses estudos levaram à criação de uma empresa especializada no desenvolvimento de modelos estatísticos para a gestão automatizada de recursos no mercado financeiro, a Prediction Company.
O modelo da Prediction se baseava nos dados históricos dos ativos para encontrar as distorções de mercado. A aposta dos dois físicos era de que era possível identificar quando essas distorções seriam corrigidas logo no começo do movimento de reversão de tendência. Os resultados práticos desses estudos foram tão satisfatórios que a Prediction chegou a ser avaliada em mais de 1 bilhão de dólares quando, anos depois, foi comprada pelo banco suíço UBS.
Desde a fundação da Predicition, muitos gestores de fundos de hedge desenvolveram seus próprios modelos para gerir recursos com eficácia. Em todos os casos, a rápida identificação de uma tendência era a senha para o investimento em um ativo com a realização do lucro assim que a alta ou a baixa indicada pelo programa de computador se concretizava. Casos de sucesso popularizaram esse tipo de estratégia, principalmente nos mercados futuros, com contratos de commodities, índices de ações e câmbio.
Hoje mais da metade dos 8.000 fundos de hedge do mundo utilizam somente a análise técnica para tomar suas decisões de investimento. Em boa parte deles, a análise é totalmente automatizada. O matemático James Simons, um dos mais bem-remunerados em todo o mundo e dono de uma carteira de cerca de 30 bilhões de dólares, toma a maior parte de suas decisões com o uso de softwares que fazem análises da trajetória de ativos em busca de oportunidades.
No Brasil, entretanto, essa onda é apenas uma marolinha. Muitas das principais instituições financeiras brasileiras não oferecem fundos quantitativos aos clientes e as instituições que apostaram nesse tipo de produto captaram um volume de recursos muito baixo. O primeiro grande banco a lançar um fundo quantitativo no país foi o Santander, no início da década. O Santander FI Dinâmico Multimercado é bastante procurado por gestores que querem diversificar suas carteiras e administra um patrimônio de 203 milhões de reais. O rendimento do fundo, no entanto, chama bem mais a atenção: 170% do CDI (o juro de mercado) ao ano.
Alexandre Silvério, superintendente de fundos de renda variável e multimercados do Santander, diz que o FI Dinâmico é um fundo quantitativo puro, em que os gestores não têm nenhuma ingerência sobre as decisões de investimento. Cabe aos seres humanos apenas desenvolver os modelos de identificação de tendências e testá-los para verificar se a estratégia funcionaria em períodos passados. Aprovado nos filtros, o sistema passa a rodar sozinho.
"A grande vantagem desses fundos é tirar a emoção do gestor na tomada de decisão", afirma Silvério. Isso é particularmente importante em momentos de bastante estresse no mercado, em que os gestores precisam saber reconhecer as perdas como forma de limitá-las ou até para adotar estratégias que gerem lucro na baixa. Em 2008, por exemplo, o FI Dinâmico teve um rendimento de 38% enquanto a maioria dos investimentos em renda variável amargaram pesadas perdas.
Quantitativos sem quantidade
Uma das explicações para que os fundos quantitativos continuem a ser um pequeno nicho de mercado está na falta da liquidez para muitos papéis negociados na BM&FBovespa. Quanto maior o volume de negócios de um mercado, mais recomendável será usar o poder de processamento dos computadores para identificar as distorções de preços.
A necessidade de liquidez é tamanha que há fundos quantitativos que captam o dinheiro no Brasil para investir no exterior. Esse é o caso do austríaco Superfund, que lançará um fundo no Brasil nos próximos meses. Entre os recursos captados dos investidores brasileiros, somente a parte que for direcionada à renda fixa ficará no país. O resto do dinheiro será usado em operações na bolsa de Chicago, uma das maiores do mundo em commodities e contratos futuros.
"É mais seguro para os clientes trabalhar em mercados com maior liquidez", diz Lance Reinhardt, diretor do Superfund na América Latina. "Desde o lançamento do primeiro fundo quantitativo em 1996, o Superfund acumula uma rentabilidade de 18% ao ano, muito acima da média do mercado."
Os fundos quantitativos, no entanto, ainda estão longe de ser uma unanimidade no Brasil. Para Nicholas Barbarisi, sócio e diretor de operações da Hera Investiments, por uma questão cultural o brasileiro prefere investir o próprio dinheiro em aplicações menos complexas. "Usamos muito a análise técnica em nossas decisões de investimento. Mas ainda preferimos ter um gestor com uma cabeça pensante, que escolha ações de empresas sólidas em momentos favoráveis", afirma Barbarisi.
Mesmo Barbarisi, no entanto, admite que os fundos quantitativos tendem a ganhar espaço no Brasil, assim como já aconteceu no exterior. Não há dúvidas que os computadores podem ser muito mais eficientes no processamento de milhares de informações por segundo. Da mesma forma que o pregão viva-voz na Bovespa foi totalmente substituído pelas operações via internet ou telefone, é provável que em algum momento no futuro a tecnologia também possa aposentar a gestão humana nos investimentos.