July 20, 2009

Como você, investidor, lê o jornal na hora de aplicar?

Como eliminar o viés de confirmação e o viés de otimismo ?
1. Trade with the trend.
2. Ride winners and cut losers.
3. Manage risk.
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A teoria financeira comportamental convencionou chamar de viés de confirmação a tendência que temos de sobrevalorizar as informações que confirmam nossas opiniões e subvalorizar informações discordantes. Estudos mais recentes revelam que o viés de confirmação tem desdobramentos ainda maiores, pois revelam que os indivíduos procuram intencionalmente informações e notícias que suportam suas próprias opiniões e pontos de vista, evitando a todo custo ser confrontado por informações contrárias.
Estudos de marketing voltados ao comportamento de consumidores no período pós-compra mostra com clareza essa tendência quando revela que, após à aquisição de um bem, o comprador deixa de prestar atenção às publicidades de produtos concorrentes como forma de não colocar em dúvida sua escolha recente. Dando base a tal comportamento está a tendência humana de evitar momentos de dúvida e o desconforto que os acompanham.
A teoria da dissonância cognitiva (Festinger, 1957) postula que atuamos de tal maneira que não haja incoerência entre as informações que recebemos e as opiniões que defendemos. Dessa maneira, ao recebermos um notícia contrária à nossa posição (seja ela uma opinião, uma postura, uma crença etc), gera-se um desconforto para o indivíduo. Para evitar essa situação, evitamos reduzir a dissonância entre opinião e informação recebida, modificando uma das variáveis que geram a contradição. Nesse aspecto, a procura por informações que confirmam nossas opiniões e o bloqueio a informações discordantes são, via de regra, as alternativas mais utilizada para solucionar esse conflito e o desconforto que o acompanham.
Qual a implicação dessa tendência comportamental para o investidor? O aplicador busca constantemente informações nas mais variadas fontes para embasar decisões de investimentos, revisar posições mantidas nos diversos ativos etc. Para investigar esse tema, Goetzmann e Peles (1997) pediram a uma amostra de investidores individuais que fornecessem a performance absoluta dos fundos em que investem e a performance relativa a um índice de mercado adequado.
O grupo de investidores analisados era composto por integrantes da Associação Americana de Investidores Independentes (AAII), ou seja, indivíduos que, na média, procuram informações sobre o mercado financeiro e seus investimentos. Foi, então, pedido que estimassem a performance futura de seus investimentos e que, ao longo do período de análise, guardassem as notícias que mais chamaram a atenção e influenciaram suas decisões de investimentos.
Uma primeira conclusão foi que os investidores superestimaram tal performance. Além disso, quando confrontadas as carteiras de investimento de cada investidor com as notícias que utilizaram para balizar suas decisões, os pesquisadores verificaram de forma contundente a influência do viés de confirmação - as notícias coletadas via de regra continham informações que suportavam os investimentos dos investidores. Foram raríssimos (menos de 2%) as notícias que questionavam tais posições ou que ressaltavam os riscos que poderiam resultar em perdas.
Atuando em conjunto com o viés de confirmação, temos o fato de que a maioria dos investidores tende a focar sua atenção no potencial de alta dos investimentos, relegando a segundo plano o risco de perdas - o chamado viés de otimismo na teoria financeira comportamental. Kahneman e Thaler (1999), ao conduzirem um estudo para o site de finanças morningstar.com, chegaram à conclusão abaixo ao fazerem a seguinte pergunta a 1.053 investidores: "Ao pensar em seus investimentos você pensa mais na possível alta ou baixa?"
 Muito mais tempo na alta: 39%
 Mais tempo na alta: 35%
 O mesmo para ambos: 19%
 Mais tempo na baixa: 6%
 Muito mais tempo na baixa: 1%
Ou seja, 74% sofrem do chamado viés de otimismo e geralmente são os mesmos que realizam saques de suas aplicações de risco ao primeiro sinal de realização do mercado, voltando correndo para a bolsa depois de estabelecida uma tendência de alta. Ao agir dessa forma, vendem na baixa e compram na alta.
Saber identificar tais tendências, resistir a seus apelos e atuar em direção oposta, apesar de desconfortável, pode ao longo do tempo proteger a carteira de investimentos da influência negativa dessas tendências de comportamento que, não custa lembrar, são inatas e inconscientes.
Aquiles Mosca é estrategista de investimentos pessoais, superintendente de vendas da Santander Asset Management e autor dos livros "Investimento sob medida" e "Finanças Comportamentais"
Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.