MINHA HISTÓRIA

 

Era início da década de 1980. Uma das coisas que mais me chamava a atenção ao assistir o telejornal eram as análises sobre a variação diária dos índices do mercado acionário da Bovespa e da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Eram dados e números que me provocavam curiosidade. Não tinha a menor ideia sobre o que representavam e por que se alteravam, ou qual era o significado de percentual de alta ou baixa. Nenhum membro da família investia em renda variável ou lidava com questões dessa natureza. Ainda assim, o comportamento dos preços me causava interesse.

Com 16 anos, já ensaiava alguma experiência profissional. Andava pelo bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre, de porta em porta, vendendo anúncios para um jornal que circulava à época naquela região - o Jornal Moinhos de Vento. À tarde, após o colégio, visitava lojas e consultórios médicos tentando captar clientes para os espaços publicitários do Jornal.

O ingresso na universidade, em 1988, aparecia como uma chance de começar a encontrar as respostas daquelas dúvidas que haviam surgido na adolescência. No entanto, poucas pessoas conheciam como funcionava o mercado de renda variável, mesmo na faculdade de Administração de Empresas.

Já no primeiro semestre do curso, comecei a trabalhar como estoquista durante oito horas por dia em uma distribuidora de componentes eletrônicos localizada no centro de Porto Alegre. Próximo dessa empresa, havia uma corretora de valores bastante conhecida na época, a Delapieve. Aproveitava alguns horários de almoço para ir até lá e tentar entender um pouco mais sobre os mecanismos do mercado de ações. Embora houvesse ido à corretora algumas vezes, ainda não conseguia esclarecer todas as dúvidas que tinha. Para diminuir um pouco a inquietação, contentava-me com algumas brochuras, publicadas pela Bovespa, que traziam informações básicas sobre o tema que tanto me interessava. 

No final da década de 1980, já com vinte anos e sempre conciliando o trabalho com os estudos de Administração de Empresas no turno da noite, ingressei como estagiário na Mesbla DTVM. Eram tempos de hiperinflação no país. A taxa chegava aos 80% ao mês. A Mesbla, por sua vez, operava apenas com renda fixa. Pude me aproximar do tema que me atraía ao trabalhar com captação e comercialização de letras de câmbio. Contudo, ainda faltava adentrar o universo da renda variável.

 

 

A DESCOBERTA DO MERCADO

 

A chance de pesquisar sobre renda variável veio de forma inesperada. O ano era 1995 e a Microsoft estava selecionando profissionais para seu novo escritório em Porto Alegre. Enviei meu currículo e fui chamado. A internet era ainda um tanto incipiente, mas foi naquela empresa que descobri a tecnologia e passei a buscar informações sobre o mercado de renda variável. 

No final da década de 1990, surgiu a oportunidade de realizar, nos Estados Unidos, uma pesquisa abrangente sobre especulação financeira. Foi possível conhecer pessoalmente especialistas de sucesso nesse segmento e estudar suas estratégias. 

Cada vez mais, minha vida profissional seguia um rumo, que era ingressar no ambiente do mercado financeiro – o que ocorreu, efetivamente, em 1998. 

A partir de um e-mail enviado por um amigo, começava a se formar o embrião de uma empresa que eu fundaria poucos anos depois. Na mensagem que recebi, Arthur Johanpeter, estudioso do mercado financeiro, falava sobre trading systems e as características dos sistemas mecânicos em relação à análise fundamentalista. Parecia ser algo hermético para quem não vivia aquele universo, mas que provocou questionamentos sobre a possibilidade de um algoritmo tomar a decisão de compra ou venda de uma ação ou de um contrato futuro. A partir daí, foi possível começar a compreender o conceito e os benefícios da utilização de contratos futuros.

 

 

A EXPERIÊNCIA POSTA EM PRÁTICA

 

A experiência que fui acumulando me fez perceber que eu poderia operar vários mercados de forma racional e objetiva. Iniciou-se nesse momento o projeto Seival, nascido a partir do aprendizado com os erros que cometi no estouro da bolha da internet, em março de 2000. A experiência serviu para me dar a confiança necessária e me dedicar a desenvolver uma estratégia baseada 100% em sistemas mecânicos.

A Seival Systems foi fundada em setembro de 2001. Nesse período, iniciei o desenvolvimento da filosofia que originou o primeiro programa de investimentos da Seival. A empresa ainda não tinha sede própria e funcionava no modelo home office. Esse cenário mudou em maio de 2003, quando Arthur e eu alugamos um espaço de 30m2. Apelidamos o local de “garajão”, numa brincadeira com a garagem da HP, localizada no Vale do Silício. Foi exatamente no “garajão” que implementamos o programa de investimentos FGS em nossas carteiras pessoais.

Em 2006, fundei a Seival Agente Autônomo de Investimentos. Os clientes da Seival AAI utilizavam o FGS para investir em contratos futuros. O sucesso desse programa nos motivou a criar, dois anos depois, a gestora de recursos Seival Investimentos.

Em 2008, o mundo viveu um dos momentos econômicos mais dramáticos, desencadeado pela bolha do subprime americano. Justamente nesse ano, a estratégia da FGS consolidou-se. A queda do índice Bovespa e a desvalorização do real frente ao dólar fizeram com que o FGS gerasse ótimos resultados aos investidores. Já no ano seguinte, iniciamos a operação do primeiro fundo de investimentos da Seival, o FGS. 

 

 

SEMPRE EM BUSCA DE CONHECIMENTO

 

Buscar informações e conhecimento junto a especialistas e àqueles com experiência em estratégias quantitativas seguidoras de tendências sempre nos moveu durante a atuação na Seival.

Além da influência de terceiros, por muito tempo agi também levado por minhas emoções. Testei diferentes plataformas de trading, imaginando que acharia a plataforma “perfeita” e que isto seria relevante no resultado final. Customizei em demasia sistemas mecânicos tentando eliminar o risco.

Utilizei vários monitores simultaneamente, adicionando mais informação ao processo. Acreditava que, assim, investiria com mais eficiência.

Para colocar em prática os ensinamentos adquiridos, operei ações no curtíssimo, médio e longo prazo (smallcaps, midcaps e big caps), contratos futuros (índices, commodities) e opções. Utilizei a estratégia Buy and Hold no estouro da bolha do Nasdaq. Ouvi e considerei palpites de diversos corretores, deixando que terceiros influenciassem minhas decisões. Durante esse período, mudei de corretor diversas vezes. Operei a partir de notícias e li relatórios de analistas de grandes bancos de investimentos, convencido de que eles sabiam de algo que eu desconhecia.

Hoje, percebo que, talvez, meu maior erro – e, também, maior aprendizado – foi o de não ter tido disciplina e paciência suficientes para manter uma estratégia seguidora de tendências, que desenvolvi logo no início de meus estudos, no momento em que a mesma atravessou um período ruim. O tempo mostrou que a estratégia é vencedora. Foi um ensinamento difícil, mas que me fez não esquecer. Afinal, aprendi com a vivência, por meio da tentativa e erro. Há um conceito descrito por Jesse Livermore, especulador americano do início do século XX, que resume muito do que vivi e pude absorver como aprendizado: “Os frutos do seu sucesso estarão na proporção direta da honestidade e sinceridade de seu próprio esforço em manter seus próprios registros, fazendo o seu próprio pensamento, e chegando a suas próprias conclusões. Você não pode ler um livro sobre ‘Como manter a forma’ e deixar o exercício físico para outro”.

 

 

O MELHOR DO ANO

 

As eleições presidenciais de 2014 trouxeram grandes oportunidades para a nossa estratégia seguidora de tendências. Os mercados do dólar, o índice Bovespa e a taxa média de Depósitos Interfinanceiros de um dia (DI) indicaram tendências bem definidas, assim como no mercado externo, com destaque para a desvalorização das principais moedas em relação ao dólar americano. O FGS, por sua vez, rendeu 50,22% em 2014.

No ano seguinte, o FGS foi reconhecido como o fundo mais rentável entre todos os gestores brasileiros. Esse resultado expressivo nos fez ser reconhecidos como a gestora em destaque pelas revistas Infomoney-Bloomberg e Exame. Foi realmente um indicativo de que estávamos no caminho certo e sendo fiel à nossa base filosófica de investimentos, ou seja, a de buscar sempre a opcionalidade[1] nas oportunidades que surgem. 

Na Seival, desde os primeiros dias de sua fundação, adotamos a seguinte heurística do economista David Ricardo (1772-1823): “corte as perdas rapidamente e deixe os lucros rolarem”.

 

[1]Opcionalidade é a possibilidade de ganho (preferivelmente ilimitado) com a possibilidade de perda proporcionalmente limitada (preferencialmente minúscula).

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